7 de agosto de 2012

CAOS – TERRORISMO POÉTICO - Parte #3

Este será nosso texto sagrado e nosso guia.
AMOR LOUCO (AL)


O amor louco não é uma social-democracia, não é um parlamentarismo a dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a prosa. Nem isso, nem aquilo – seu Livro de Emblemas treme em suas mãos.
Naturalmente, ele caga para os professores & para a polícia. Mas também despreza os liberais & os ideólogos – não é um quarto limpo & bem iluminado. Um topógrafo embusteiro projetou seus corredores & e seus parques abandonados, criou sua decoração de emboscada feita de tons pretos lustrosos & vermelhos maníacos membranosos.
Cada um de nós possui metade do mapa – como dois potentados renascentistas, definimos uma nova cultura com a nossa excomungada união de corpos, fusão de líquidos – as fronteiras imaginárias da nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor.
O anarquismo antológico nunca retornou de sua última viagem de pecas. Conquanto ninguém nos denuncie para o FBI, o Caos não se importa nem um pouco com o futuro da civilização. O amor louco procria apenas por acidente – seu objetivo principal é engolir a Galáxia. Uma conspiração de transmutação.
Seu único interesse pela Família está na possibilidade de incesto (“Amplie o seu Eu”, “Toda pessoas é um Faraó”) – Ó, mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu irmão/irmã - & na masturbação de uma criança ele encontra, oculta (como uma caixa-surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado.
As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até alguém as roube de volta. Os surrealistas se desgraçaram ao vender o amor louco para a máquina de sombras do Abstracionismo – a única coisa que procuraram em sua inconsciência foi o poder sobre os outros, & nisso foram seguidores de Sade (que queria “liberdade” apenas para que homens brancos & adultos pudessem estripar mulheres e crianças).
O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino adequado para comissários ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão.
O amor louco pede uma sexualidade incomum. O mundo anglo-saxão pós-protestante canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade & divide-se entre multidões conflitantes: caretas histéricos versus clones promíscuos & ex-ex-solterios. O AL não quer se alistar no exército de ninguém, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), não reclama, não explica, nunca vota & nunca paga impostos.
O AL gostaria de ver todo bastardo (“filho natural”) chagar ao fim de sua gestão & nascer – o AL vive de aparelhos antientrópicos – o AL adora ser molestado por crianças – o AL é melhor que sensimilla3 – o AL leva para onde for sua próprias palmeiras & sua própria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Layla & Majnun4, o cheiro de pólvora & de esperma.
O AL é sempre ilegal, não importa se disfarçado de casamento ou de um grupo de escoteiros – sempre embriagados do vinho de suas próprias secreções ou do fumo de suas virtudes polimorfas. Não é a deterioração dos sentidos, mas sim sua apoteose – não é o resultados da liberdade, mas seu pré-requisito. Lux et voluptas.


Por Hakim Bey (publicado originalmente em http://goo.gl/cAU3, no dia 06/12/2004).

(Este livro foi lançado pela Conrad Editora do Brasil – 2003. Tradução de Patricia Decia & Renato Resende – www.conradeditora.com.br)

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