16 de agosto de 2012

Revisão de Princípios



13:25. Estação metrô Clínicas, São Paulo. Saída principal. À uns trinta metros da saída para a rua, o som me chama a atenção. Dez ou quinze metros da rua, ainda dentro do túnel, consigo enxergar o rapaz mulato, pouco mais alto que eu, de colete e chapéu. Nas mãos o violino, no chão a sua frente o case aberto com alguns poucos reais jogados.


O trânsito de pessoas era intenso no horário, e ao reduzir meu passo para ter a oportunidade de ouvi-lo com mais calma, fui trombado, desviado, visto como obstáculo. Olhei ao redor e apenas eu passava vagarosamente, observando o músico que tocava uma peça de sensação alegre e suave. Ele era bom. Muito bom. Tocava com destreza, e passava simpaticamente seus olhos pela sua “audiência”, mas sem retorno. Todos preocupados demais com suas vidas para dar-lhe atenção. Ao cruzar sua linha de visão, sorri e disse “muito bom....”.

Recebi nessa ocasião o sorriso mais sincero daquele dia. Nem os vendedores que 15 minutos mais tarde tentavam me empurrar instrumentos superfaturados se dignaram a tal simpatia. Mas, a música dele fez diferença para mim. Eu não gosto de São Paulo, e não gosto de ser amassado no metrô. Não gosto das caras feias das pessoas, e dos atendentes que não respondem ao “bom dia’’. Mas saí da estação de bom humor,negociei meus equipamentos com calma e voltei de metrô lotado para casa. E ainda cantarolando a música que por pouco mais de 3 minutos eu ouvi.

Eu não pude me impedir de pensar que eu fiz parte de uma minoria naquele dia que deu atenção e se sentiu tocado pela música, mas que frente a total alienação mercadológica que sofro, e a arrogância e sensação de superioridade de todos aqueles que aprenderam o que era uma semicolcheia, fazia muito tempo que eu não me sentia enternecido pela música e seu incrível poder de tocar a alma. Nos últimos dias, enquanto amadurecia as idéias que me levam a escrever este texto, fiz força para lembrar-me da última vez que uma música me comoveu fortemente, talvez até as lágrimas, e percebi que havia já mais de um ano. Estava profundamente infeliz e sozinho, morando fora de casa, e num emprego que só me fazia mal. Numa das raras tardes de folga, ouvi essa música chamada “I walk beside you” (Eu ando ao seu lado), e aquilo mexeu comigo profundamente por dizer tudo o que eu queria ouvir naquela hora.

Portanto, determinei que não irei mais fazer vídeos nem comentários criticando este ou aquele musico/gênero/composição. Dedicarei esta coluna agora à disseminação da música, seja de que tipo for, na qualidade de algo que poucas outras formas de comunicação tem capacidade: meio de transmissão de emoções. Falaremos das ferramentas usadas para tal, e das características dessas músicas. Eventualmente, farei um vídeo técnico sobre a produção musical e linguagens estilísticas, making offs de projetos nos quais eu trabalhe, registros de gravações nas quais eu tome parte, ou materiais de mesmo teor que sejam enviados a mim e devidamente autorizados a serem alvo de comentários.
Para encerrar, fiquem com o vídeo da música que citei acima e inspirem-se a abrir a cabeça e serem mais sentimentais. E lembrarem que a arte foi criada para externar o intangível.


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