7 de agosto de 2012

Deus está vivo


            Há algum tempo me indaguei – Porque as pessoas acreditam em deus? - Já chegamos num grau de loucura social que pra mim deus não é possível, foi então que comecei a colocar no papel (quer dizer, no open office writer) um emaranhado de pensamentos a respeito do assunto. Vou dividir o resultado em 3 posts, aqui começa o primeiro:

            “Deus está vivo"
            O presente ensaio não é de maneira alguma neo-platônico. Aqui será debatido o conceito da morte de Deus, elaborado por Nietzche e retomado por Flusser, enquanto fracasso da religião, e enquanto fracasso da humanidade. A questão aqui é a necessidade de um Deus, já que seu conceito se torna “inconcebível” após a Segunda Guerra Mundial.
            Quando Nietzche conclama a morte de Deus ele obviamente (e se faz necessário frisar esta situação) não faz menção a uma morte física de Deus, mas sim a sua morte enquanto conceito transcendental e sua superação pelo Homem. Deus aqui é a manifestação ocidental de um Uno, que se consolida com a civilização judaico-cristã. Seria muita pretensão do autor do presente ensaio, abordar a questão divina na civilização oriental, da qual não possuo nem repertório, nem vivência.
            O problema na leitura da notória frase – Deus está morto - reporta a um conceito elaborado por Flusser, o conceito de programa. Flusser talvez nunca tenha pensado que, a partir de uma análise incisiva do comportamento e comunicação de sua época, estava elaborando conceitos que seriam realmente absorvidos por poucas pessoas (como por exemplo, os próprios programadores). Esta condição aparentemente óbvia beira a prepotência, mas é crucial tendo em vista o laconismo presente na grande maioria da população mundial. O programa, como previu Flusser, se tornou independente e “consome” homens para se expandir, como se o filme Matrix efetivamente funcionasse na vida “real”. O repertório do homem comum foi há tempos rebaixado, condenado a uma condição catártica (no sentido negativo da expressão) que destarte prevê uma inércia intelectual cômoda. Essa inércia tão cômoda é vestígio de um sistema cristão de informação, um sistema em forma de pirâmide. Será que os filósofos e pensadores se deram conta somente dialogariam com eles próprios?
            O sistema piramidal de comunicação humana, implantado pelo cristianismo, visa o não-dialogo, todas as respostas devem ser encontradas no vórtice divino. Todavia o atual sistema comunicativo é não-linear, em rede, e, portanto quebra com o vórtice, sem que haja um ponto de confluência único. Ora, pensando na construção de toda a civilização ocidental, baseada nos preceitos cristãos, outros valores caem por terra. Uma das grandes características do cristianismo é a culpa. A culpa determina todo um comportamento humano extremamente complexo. A culpa provém do pecado, de se fazer algo errado aos olhos de Deus, para tal ato a resposta divina é a punição. Essa punição por vezes é desproporcional, como por exemplo, a passagem “se seus olhos o levarem ao pecado arranque-os, é melhor ser cego que um pecador” (ou algo parecido), ou seja, o pecado do desejo o condenaria a cegueira durante o resto de sua vida. Essa culpa gera desconforto, o simples fato do ser humano constituir família é por sentir culpa de abandonar sua prole, o amor, numa análise extremamente cética é a transformação do afeto em culpa. Contudo o sistema de comunicação em rede se aproveita dos vestígios lineares para inibir a atividade intelectual do homem. É muito mais fácil perpetuar uma idéia, seja ela qual for, se seu receptor não possuir nenhum discernimento crítico.
            Se para Flusser um dos motivos principais para a morte de Deus é Ele ser a imagem e semelhança do criador de Auschwitz, a culpa gerada e difundida no sistema cristão passa a ser questionada, e, portanto, o Homem poderia se “desvencilhar” da sensação de culpa por atos tão absurdos. Ou seja, não haveria mais critérios éticos nas atividades humanas. E também se faz necessário lembrar que Auschwitz foi concebida sob um discurso que pretendia uma amparação divina, uma vez que a raça ariana se considerava escolhida por Deus.
            Por outro lado a semelhança entre Deus e Homem pode ser exacerbada. Inúmeras passagens bíblicas denotam certa perversão divina. Dois pontos amplamente debatidos são: O livro de Jó e a prova de fé de Abraão. Ambas as passagens tratam de uma prova de fé infligida por Deus a seus discípulos fiéis. Não cabe ao presente ensaio debater a intensidade das provações, entre outros pormenores, o que se questiona é: Qual o motivo que leva Deusa provar de forma tão cruel seus seguidores uma vez que ele (por ser onipresente, onisciente e onipotente) já saberia a conclusão dos fatos? A resposta comumente encontrada é que Deus o fez para mostrar aos homens a fé de seus seguidores e a recompensa pela mesma. Bem, se Deus faz questão de provar tal situação isso denota uma característica extremamente humana, o capricho. O capricho é uma característica atribuída aos homens, mas então pode ser considerada uma característica divina herdada pelos homens. É nessa relação não mais dialética entre características humanas e divinas que se encontra o espanto pelo caráter divino.
            Agora o leitor pode estar se perguntando qual a ligação entre o divino e a igreja, entre o divino e a bíblia; bíblia e igreja não são invenções humanas? A cisão entre igreja, bíblia e Deus é um fato muito recente em termos históricos, e se fez justamente em função das atrocidades cometidas em nome de Deus por parte da igreja, e por conseqüência dessacralizando a bíblia. Essa concepção monoteísta só se firma com o cristianismo, que por sua vez se fundamenta pelos escritos presentes na bíblia, que acabam por gerar a igreja católica (a romana e posteriormente a ortodoxa). Mesmo com o protestantismo a concepção de Deus vinculada diretamente à igreja e bíblia não cessa; a verdade, o belo e o bom eram determinados pelas igrejas cristãs e fundamentados pela bíblia.
            Outro ponto relevante se encontra no fato de que Igreja e Estado foram por muito tempo praticamente uma única instituição. A idéia de Estado laico só foi concebida com as repúblicas modernas. Com a queda das grandes monarquias (reinos, impérios, etc.), e, por conseguinte de governantes instituídos por Deus, que Estado e Igreja serão separados, e diversas guerras territoriais serão travadas. Guerras e genocídios fazem parte do comportamento humano por toda a sua existência, é só pensar em uma grande civilização que logo segue um enorme número de mortes em nome dela. O auge dessa característica auto-destrutiva humana se encontra na Segunda Guerra mundial. Perde-se a fé em Deus, por perder-se a fé no Homem. Perde-se a fé no conhecimento gerado pelo Homem. Se em algum ponto a ciência criada pelo Homem delimita divino e humano como territórios separados, mas não necessariamente em oposição, os fatos gerados pela aplicação da ciência em suas últimas conseqüências evocam a necessidade quase que irracional de um amparo divino. Então se tem que a existência de Deus antecede qualquer manifestação religiosa.”

            Continua...
            Bruno Corrente é um frustrado mestre em artes, e ateu.


2 comentários:

Unknown disse...

A consciencia de que Deus existe precede o Cristianismo, que pode aliás ser considerada uma religião moderna que ainda está se estruturando. Mas só pra pensar um pouco no por que existem pessoas que tem fé em Deus e pessoas que tem fé na ciencia ou no acaso. Deus surgiu quando o ser humano passou a ter consciencia da morte. Deus surgiu como a resposta a todas as perguntas que não tem resposta. Desde a sua criação, Deus está morrendo, cada vez mais que a fé na ciencia toma lugar na fé em Deus.

bruno corrente disse...

Oi Lucas, aqui é o Bruno, acho legal vc ler as continuações!
http://bastardossa.blogspot.com.br/2012/08/deus-esta-vivo-parte-2-o-retorno.html
http://bastardossa.blogspot.com.br/2012/09/deus-esta-vivo-parte-3.html
mas de qqer forma cada vez que eu leio o texto na íntegra mexo alguma coisa...

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